domingo, 12 de dezembro de 2010

O dia em que vi Deus - Frei Betto

Natal é a "despapainoelização" do espírito.
É quando o coração torna-se manjedoura e, aberto ao outro, acolhe, abraça e acarinha.
Violenta-se quem faz da festa do Menino Jesus uma troca insana de mercadorias. Quantas ausências nesses presentes!
Em pleno verão, nos trópicos, o corpo empanturra-se de nozes e castanhas, vinhos e carnes gordas, sem que se faça presente junto àqueles que, caídos à beira do caminho, aguardam um gesto samaritano.
Ainda criança, em Minas, aprendi com meus pais a depositar junto ao presépio a lista de meus sonhos.
Nada de pedidos a Papai Noel.
No decorrer do advento, eu engordava a lista: a cura de um parente enfermo; um emprego para o filho da lavadeira; e a paz no mundo.
Meu pai insistia para que eu registrasse meus sonhos mais íntimos.
Aos 8 anos, escrevi: "Quero ver Deus".
Minha mãe ponderou: "Não basta Nossa Senhora, como as crianças de Fátima?".
Não, eu queria ver Deus Pai.
Nem imagens dele eu encontrava nas igrejas, que exibem, de sobejo, ícones de Jesus e pombas que evocam o Espírito Santo.
Na tarde de 25 de dezembro, meus pais levaram-me a um hospital pediátrico. Distribuímos alegria e chocolate às crianças, vítimas de traumas ou tomadas pelo câncer e por outras enfermidades.
Fiquei muito impressionado com um menino de 6 anos, careca.
Na saída, mamãe indagou-me: "Gostou de ver Deus?".
Fiquei confuso: "Só vi crianças doentes", respondi.
Então ela me ensinou que a fé cristã reconhece que todos os seres humanos são imagem e semelhança de Deus.
Por isso é tão difícil ver Deus.
Pois não é fácil encarar a radical sacralidade de todo homem e de toda mulher.
Aos poucos entendi que o modo de comemorar o Natal forma filhos consumistas ou altruístas.
E descobri que Deus é tanto mais invisível quanto mais esperamos que Ele entre pela porta da frente.
Sorrateiro, Ele chega pelos fundos, via um sem-terra chamado Abraão;
um revolucionário, de nome Moisés;
um músico com fama de agitador, Davi;
uma prostituta, Raab;
um subversivo conhecido por Jeremias;
um alucinado, Daniel;
um casal de artesãos que, recusado em Belém, ocupa um pasto para trazer o Filho à vida: Maria e José.
No Evangelho de Mateus (25, 31-46) Jesus identifica-se com quem tem fome e sede, é doente ou prisioneiro, oprimido ou excluído. Aqueles que para os "sábios" são a escória da sociedade, para Deus são os convidados ao banquete do reino.
Desde então aprendi que Natal é todo dia, basta abrir-se ao outro e à estrela que, acima das mazelas deste mundo, ascende a esperança de um futuro melhor.
Sonhar com um mundo em que o Pai Nosso transpareça na grande festa do pão nosso. Pois, quem reparte o pão partilha Deus.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Posso errar? Por Leila Ferreira

Há pouco tempo fui obrigada a lavar meus cabelos com o xampu "errado".


Foi num hotel, onde cheguei pouco antes de fazer uma palestra e, depois de
ver que tinha deixado meu xampu em casa, descobri que não havia farmácia
nem shopping num raio de 10 Km.


A única opção era usar o dois-em-um (xampu com efeito condicionador) do
kit do hotel. Opção? Maneira de dizer. Meus cabelos, superoleosos, grudamsó de ouvir a palavra "condicionador". Mas fui em frente. Apliquei o produto cautelosamente, enxaguei, fiz a escova de praxe e... surpresa! Os cabelos ficaram soltos e brilhantes , tudo aquilo que meus nove vidros de xampu "certo" que deixei em casa costumam prometer para nem sempre cumprir.


Foi aí que me dei conta do quanto a gente se esforça para fazer a coisa certa, comprar o produto certo, usar a roupa certa, dizer a coisa certa , e a pergunta que não quer calar é: certa pra quem? Ou: certa por quê?

O homem certo, por exemplo: existe ficção maior do que essa? Minha amiga se casou com um exemplar da espécie depois de namorá-lo sete anos. Levou um mês para descobrir que estava com o marido errado. Ele foi "certo?" até colocar a aliança.


O que faz surgir outra pergunta: certo até quando? Porque o certo de hoje pode se transformar no equívoco monumental de amanhã. Ou o contrário: existem homens que chegam com aquele jeito de "nada a ver", vão ficando e, quando você se assusta, está casada  e feliz  com um deles.


E as roupas? Quantos sábados você já passou num shopping procurando o vestido certo e os sapatos certos para aquele casamento chiquérrimo e, na hora de sair para a festa, você se olha no espelho e tem a sensação de que está tudo errado? As vendedoras juraram que era a escolha perfeita, mas, talvez, você se sentisse melhor com uma dose menor de perfeição. Eu mesma já fui para várias festas me sentindo fantasiada.


Estava com a roupa "certa", mas o que eu queria mesmo era ter ficado mais parecida comigo mesma, nem que fosse para "errar".


Outro dia fui dar uma bronca numa amiga que insiste em fumar, apesar dos problemas de saúde, e ela me respondeu: "Eu sei que está errado, mas a gente tem que fazer alguma coisa errada na vida, senão fica tudo muito sem graça. O que eu queria mesmo era trair meu marido, mas isso eu não tenho coragem. Então eu fumo". Sem entrar no mérito da questão , da traição ou do cigarro , concordo que viver é, eventualmente, poder escorregar ou sair do tom.


O mundo está cheio de regras, que vão desde nosso guarda-roupa, passando por cosméticos e dietas, até o que vamos dizer na entrevista de emprego, o vinho que devemos pedir no restaurante, o desempenho sexual que nos torna parceiros interessantes, o restaurante que está na moda, o celular que dá status, a idade que devemos aparentar. Obedecer, ou acertar, sempre é fazer um pacto com o óbvio, renunciar ao inesperado.


O filósofo Mario Sergio Cortella conta que muitas pessoas se surpreendem, quando constatam que ele não sabe dirigir e tem sempre alguém que pergunta: -Como assim?! Você não dirige?!?. Com toda a calma, ele responde: -Não, eu não dirijo. Também não boto ovo, não fabrico rádios ...tem um punhado de coisas que eu não faço!.


Não temos que fazer tudo que esperam que a gente faça nem acertar sempre no que fazemos.


Como diz Sofia, agente de viagens que adora questionar regras:


"Não sou obrigada a gostar de comida japonesa, nem a ter manequim 38 e, muito menos, a achar normal uma vida sem carboidratos".


O certo ou o"certo" pode até ser bom. Mas às vezes merecemos aposentar régua e compasso.




Leila Ferreira é jornalista, apresentadora de TV e autora do livro Mulheres ? Por que será que elas..., da Editora Globo.












domingo, 5 de dezembro de 2010

Minha oração por você


Muito obrigada aos meus diletos amigos e leitores por mais um ano juntos.
Muito obrigada pela convivênvia leal e amável que me incentivou em muitos períodos de minha caminhada.
Muito obrigada pela companhia em palavras de carinho nos comentários que recebi.
Muito obrigada aos meus seguidores que, embora distantes, sinto-os bem perto.
Muito obrigada pelo tempo em que passei escrevendo, foi meu alento, meu conforto, minha partilha.
Muito obrigada por esse blog, meu companheiro, meu amigo, meu confidente, meu anjo de todas as horas.
Dedico meu tempo a quem me lê, compreende, anima e, acima de tudo, a quem amo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Aprenda a conter o choro e a liberar o seu lado feliz


Chega de competir tanto!
 Chega!
 Deixe a vida fluir normalmente!
Simplesmente viva, sinta e ame!

Deixe explodir sua alegria! Traga pra fora a sua doçura!
 Aprenda a conter o choro e a liberar o seu lado feliz.
 Dê mais gargalhadas!
 Não esconda tanto os seus medos e nem se deixe parecer tão invencível.

Chega de tentar controlar tanto... Seja transparente, principalmente, com você mesmo!
Ser transparente é, simplesmente, ser sincero, viu?
Mas, talvez, ser transparente seja mais do que isso:
é ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar o que vai dentro do seu coração...

Ser transparente é deixar cair as máscaras.
 As mesmas máscaras que talvez a vida te impôs nesses anos todos!
Ser transparente é permitir que a sua doçura venha pra fora, que se aflore, que se transborde.

Por que será que a maioria das pessoas decide não correr riscos?
 Quando não se corre risco, fica a dureza da razão!
 Pare de preferir o nó na garganta do que as lágrimas que brotam da sua alma, tá?
Pra que manter a imagem que te dá a falsa sensação de proteção e de força?

Perceba logo que é um bem precioso compartilhar!
Dê essa oportunidade a você e a chance para o outro de saber o que vai no fundo do seu coração!
 Aposto que você tem uma saudade desesperada de você mesmo, daquilo que pulsa e grita dentro do seu peito,
mas que não está tendo coragem de mostrar....

Vamos, solte-se!
 Liberte-se!
 Viva!
 Você sabe que não tem nada de fraco, nada de bobo, nada de menos que o outro, nada de frágil em se mostrar.
 Abra as portas do seu coração!

Bom Dia! Bom divertimento! Boa semana! Seja feliz!

"A vida não é medida pelo número de vezes que você respirou,
mas pelos momentos em que você perdeu o fôlego de tanto rir, de êxtase, de felicidade"

Mensagem de Luis Carlos Mazzini




  

sábado, 13 de novembro de 2010

Amigos virtuais não têm idade...


  De repente percebo com encantamento que amigos virtuais não têm idade. Eles têm essa forma bonita de se aconchegar no nosso colo, de se eternizar de maneira indefinida e a gente não sabe adivinhar se são crianças ou experientes da vida.
Há nas suas palavras um perfume de mistério, eles brincam, falam sério e quantas primaveras viveram torna-se tão insignificante que a gente nem pensa mais. Abraçamos a imagem sem ver o rosto, bebemos as palavras sem nos questionar.
O que é a idade? Na net isso não tem a mínima importância. Amigos de vinte, trinta, quarenta... oitenta anos!... Todos tão iguais, todos tão especiais. Amamos o que lemos, o que recebemos, aquilo que se adentra e se apega à nossa alma e não pensamos se os olhos são castanhos ou azuis, se o cabelo é loiro ou preto, curto ou comprido, se a pele é negra, branca ou morena.
Há nessa rede muito mais calor humano, muito mais igualdade, menos preconceitos, mais amor do que em qualquer outra sociedade. Aprendemos a amar as pessoas simplesmente pelo que são e pelas alegrias que trazem ao nosso coração.
Ai!... Que alegria essa evidência divina! Somos elos dourados, somos seres abençoados, pétalas de uma mesma flor, somos lindos versos entrelaçados!...
 
Letícia Thompson
 
Ah!!! Esse texto gostaria de tê-lo escrito, então, faço dele as minhas palavras!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Solidão



A solidão nos faz bem na maioria das vezes. No entanto, envereda-nos por caminhos indesejáveis. Sempre li que estar sozinho é bom, é necessário, enriquece-nos a alma, faz-nos conhecer melhor a nós mesmos, principalmente, quando acompanhada de momentos de meditação.

A solidão, porém, deixa-nos frágeis, sensíveis e, por mais que queiramos ser fortes, a fraqueza nos acompanha em momentos de angústia. Nas muitas oportunidades em que me senti só, pude notar que não nasci para viver sozinha, não no sentido matrimonial, mas no da fraternidade, companheirismo, familiar, da amizade. Conversar, dialogar, trocar ideias, estar ao lado de alguém, mesmo em silêncio, é não estar só.

A TV facilitou muito a vida dos solitários. No início dos anos 60, veio para nossa casa e todos ficamos muito encantados com as imagens miraculosas que chegavam naquela pequena janela que dava para o mundo. Faz companhia para os idosos, doentes, acamados, que moram sozinhos aprisionados em seus apartamentos ou mesmo em suas casas...o simples apertar um botão já os deixa antenados com o que acontece com o mundo inteiro e a voz que sai da telinha é uma companhia. 

A internet é, também, outra arma muito poderosa para os que se sentem sós. Aos que sabem usá-la, é uma maravilha, pois, descobre-se o mundo no computador sem precisar sair de casa, mas, perigosa para aqueles que vêm nela sua tábua de salvação, especificamente, quando se fala em sites de relacionamneto. É comum ficar sabendo pelos jornais, revistas ou mesmo pela TV que jovens casais se conheceram nesses sites e está cada vez mais comum em nossos dias tal prática que facilitou demais a vida de pessoas que buscam um parceiro(a)  a qualquer preço.

Acho tudo isso muito perigoso. Existem pessoas que não conhecem uma boa conversa, um bom papo. Querem a todo custo que a 'web cam' seja aberta, em caso de skype, msn e outras redes sociais. Se não a tiver, o papo, automaticamente, é interrompido. E onde fica a conversa? A fuga da solidão para aqueles que querem apenas uma palavrinha de amizade? Naturalemente não é ali que se vai encontrar companhia. É complicado, de extremo mal gosto e grosseiros atos dessa natureza. Definitivamente, em minha opinião, a internet não é o melhor lugar para se fazer amigos, com raríssimas exceções.

Quanto à solidão, não há como fugir. É fácil se encontrar com ela e difícil se sair dela, com todas as propostas de ensaios relacionados a viagens, (des)encontros, leituras, terapias alternativas, participação em grupos. Essas atitudes amenizam a dor dos solitários, mas fazendo-nos a ronda diária estará a solidão.

O melhor é dar-lhe uma 'banana' e sair rodando meio literalmente a baiana...pode ser que, assim, a gente sacuda a própria vida, dê um mergulho nas profundezas do silêncio natural, coloque um Pink Floyd ou outro roqueiro dos bons para ouvir e faça como Bethoven, ouça o som do silêncio, que faz bem pra alma e repercute no batuque do coração, avisando-nos que há vida do outro lado da solidão.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Afago dos sons

A música faz parte de mim. Lembro-me de tê-la sempre por perto em todas as fases de minha vida. Para cada momento vivido uma em especial. Quando era pequena, aprendi a cantar músicas relacionadas a historinhas infantis as quais cantei para meus sobrinhos, naturalmente, contando as histórias e até hoje para meus sobrinhos-netos, juntamente, com as canções das quais me recordo.

Na juventude quantas marcaram meus namoros, uma especificamente, recordo-me bem,”Primavera”, interpretada, brilhantemente, por Tim Maia.

Quando entrei para valer na escola primária, estudei na cartilha de Lili. Os cartazes eram grandes, achava as ilustrações lindas e a professora, D. Marta Bini, baixinha, loirinha, brava! foi nossa alfabetizadora. Chamava-me de ‘descabelada’, porque como brincava muito no recreio, voltava suada para a sala de aula e meu cabelo comprido e liso não parava no lugar. Nada o prendia, até hoje tenho o couro cabeludo dolorido e não consigo prendê-lo com uma só ramona!

A cartilha de Lili era linda. A menina era muito prendada, tocava piano, cantava e havia uma música para ela: Eu vivo a vida cantando/ai Lili, ai Lili, ailô/ por isso alegre contente estou/com o que passou, passou/ o mundo gira depressa, e nessas voltas eu vou/ cantando a canção tão feliz, que diz/ ai Lili, ai Lili ailô/ ...(mais ou menos assim). Na realidade mais me parece uma cantiga folclórica, a nossa memória altera nossa visão do passado...

Quando entrei na Faculdade, saíamos pela rua contentes cantando músicas portuguesas. A dançar e a cantar pelas ruas. Que tempinho bom, sem preconceito, sem neuras, fobias, malícia...Éramos tão felizes..quantos de nós sobreviveram? Alguns, infelizmente, sucumbiram às doenças, impossibilitados de lutar contra elas.

Na idade adulta, resolvi aprender a tocar violão. Tia Sylvia, como sempre dadivosa, deu-me o bem precioso o qual guardo até hoje e sem saber a quem doá-lo, porque ainda não percebi alguém com vontade suficiente para tocá-lo.

Meus dedos já não eram tão flexíveis e tive dificuldade e, também, como dizia meu professor, José Maria, não treinava. Ele vinha em minha casa, tocava e eu cantava. Quer dizer que eu gostava mesmo era de cantar. Sou afinada ainda.

Fui parar num coral. Mezzo soprano. Nessa época minha professora Norma chamou-me para umas aulas de canto e foi como se jogasse o peixe n’água. Foi um período gostoso e ela achava minha voz lindíssima. Como são os professores. Somos assim mesmo, os alunos é que não acreditam em si mesmos e em nós. Pena!

Hoje não posso mais tocar violão, só ouço muita música, canto pouco, meu espírito nem sempre me dá tempo, deixei o coral, continuo cantando para meus sobrinhos e pelo menos eles me aplaudem, acham lindo e vou dormir com eles muito feliz!

A música afaga meu coração, entristece-me a vida, se há algum descontentamento, alegra-me e inspira-me sempre, sempre e me leva a fazer as pazes com a vida. Minha caminhada é recheada de sons, ruídos, latidos, miados, gorjeio de pássaros, passinhos de jabutis, zunido do vento nas árvores, zumbido de abelhas e muito mais.

Ai de mim sem meus ouvidos para escutar. Pena de Bethoven que passou quase toda a vida sem ouvir e, ainda assim, compôs a maravilhosa Sonata ao Luar!